segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Na quinta do era

Era de tarde em Aveleda
e a tarde dera trégua à chuva


Tiraste da algibeira as chaves
e foste-me abrindo as portas ao fundo de ti,
ao que és,
ao que foras.
E eram às lâmpadas queimadas,
e eram as salas vazias,
livros abandonados,
móveis ausentes,
o teu quarto, intacto, tal com era,
as celas que já não eram
ou o aqui que era a adega,
e a capela, ali, que era onde,
as cortes,
o lenheiro,
as relíquias e relicários
do que houve e do que não havendo há
num rasto de nostalgias caladas,
religiosamente descritas:
aqui era, aqui era, aqui era...

No quintal ainda o plátano,
colossal e nu,
denunciava-te no que és:
soma de tanto era.

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Num instante

Nunca me senti maior do que nesse instante,
contemplando-te desde a pequenez pasmada
do meu corpo.

Nunca ninguém me fizera grande assim,
enorme: bastou que me oferecesses um poema
que continha o universo.

Fui a imensidade durante um segundo imenso.

Depois veio a vertigem: pernas a tremer,
cabeça às voltas, olhar desmaiado...
Caí a terra.

Num instante.

sábado, 30 de Janeiro de 2010

Filme

Bem podíamos, é verdade,
acudir por separado ao cinema,
sentar juntos ao fundo da plateia,
nas poltronas pior iluminadas,
prendermos a vista no ecrã,
de olhada impenetrável,
e atendermos só ao palpitar,
ao ritmo do pulso galopante,
ao calor dos corpos e aos odores,
aos silêncios ponteados de suspiros
arfados, ansiosos. Ah...
Podíamos mesmo até
beijar-nos aproveitando
um bombardeio qualquer,
uma perseguição ou outra
ou a barafunda duma família latina
em volta da mesa do jantar
disputando uma herança.

Podíamos tanta pouca coisa!

Mas afinal sempre vem o fim do filme,
rolam os créditos,
prendem-se as luzes,
abrem-se as portas
e lá fora está muito frio
para a falta de cantos escuros que nos permitam
abrir as narinas e aspirar
com força
os odores que esvaecem.

quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Nem nunca

Lavo a boca compulsivamente
para apagar o sabor do rebuçado
que acabei de tomar, iludindo-me,
a pensar que precisava açúcar,
quando o que precisava,
o que precisava mesmo
era ter na boca o sabor dum beijo teu;
como quando fodo a pensar que é foder o que quero
e no fundo,
por dentro e por fora do fundo,
o que queria mesmo era um abraço,
o abraço teu.

E tu nem onde nem nunca nada...!
Eu aqui e sempre,
sabão na pele,
mentol na língua.

Os ollos del

De entre todas as belezas tristes
pódeme a da humidade luminosa,
que desde o fundo do retrato escuro
roubado ao lusco-fusco clandestino
da delicadeza
me contempla expectante,
desafiándome a ondas de tenruras imposibles
sobre a pel novísima das cicatrices.

terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Antologia perversa

Se eu desse em ler agora (e por sempre) todos os poemas que me deste
não mais saía de mim, não mais da palavra me afastava,
nem olhava mais, nunca mais, aos olhos doutros,
nem aos meus, os próprios, só luz do desencanto.
Afundava no feitiço,
na violência mansa
da gramática assaltada,
na cruel intransitividade dos verbos
que há tanto perderam os objectos,
directos ou indirectos,
em que prolongavam carícias.
Mergulhava no ensalmo das letras,
subtilmente entrelaçadas, mágicas,
e afogava nelas, nelas
abafava o grito, o último, o mais calado.

Depois, quando o depois até que enfim chegasse,
na viravolta da eternidade,
mastigadas as metáforas,
o silêncio cobrir-me-ia
de pétalas a boca
como mordaça.

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

Arqueoloxía profunda

Pensei que non se desaprendía,
que era como andar en bicicleta,
que as mans habían de recoñecer
o camiño antigo sen guías nin mapas.
Era máis un escavar minucioso,
delicado,
vertical,
para desenterrar
falanxes sen o mínimo alento
e soñalas vivas.

Esquecérame que xa me esqueceu
soñar-sentir
e os dedos entaláronse,
na ansia do pracer
derrotados.

sábado, 23 de Janeiro de 2010

Hixiene íntima

Cada noite a altas horas
extirpo con mans asépticas o corazón,
límolle as bostelas,
retírolle os coallos
e póusoo suavemente sobre a herba,
á chuvia
e ao vento.
Que xa eles se ocupan de rematar o labor por min,
de lavalo e lustralo, respectivamente,
mentres durmo sosegada.

Logo de mañá cedo,
aínda húmido e pesado,
devólvoo ao sítio
e cósoo con sutura estéril.

A limpeza prolonga a vida útil da maquinaria.
Disque.

segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

O canto do pisco (em dó menor)

No lugar de paz, calma e sorrisos

Pousas o corpo rechonchudo na rama
eroticamente despida do bordo
—que já não é japonês nada—
e cantas durante uns segundos
prendendo-me no teu feitiço,
o olhar profundo,
macio, pequenito, ligeiro
(eu sei que és ligeiro: já tive um nas mãos,
que resgatei palpitante no horrível susto nosso,
seu e meu,
da boca bondosa duma minha cadela cor-do-sol-em-alto).

Sacudo as pálpebras ao de leve levíssimo
e ascendes, saltitas
duma rama a outra e da outra a nenhuma.
Não me fujas assim!
Tivesse eu caçadeira e eras ave de morte morrida, morta,
estrondo e abalar da terra! —ameacei peteira peta-pouco.
Tenho é só uma câmara de ar manso
de que desconfias como se te fosse roubar o canto
num disparo. E fazes bem.
Fazes-me bem.

Fascina-me, então, nessa tua melodia, que eu gosto,
nem que nunca te alcance,
intocáveis, se tem de ser, seja,
tu na tua rama
e eu na cozinha
a te oferecer migalhas
por um solo de pisco em dó menor,
em dó.

quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

Tempo de regresso

Chegou o tempo de sair
a navegar pelos caminhos,
humedecer a pele,
hidratar os olhos,
molhar os cabelos.

Está na hora de eu ser
rio também,
sereno ou agitado,
de abranger as margens
do universo
de mãos liquescentes;
de alcançar o mar
com os pés
e a nascente, de testa a fluir
a montante.

É boa altura já para ascender
pelos meandros e as auroras
de onde vim.

segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Bágoas

Declaração de princípios (e finais):

O título, para o valter hugo mãe,
ele sabe porquê e o mundo, não tarda, saberá.
O texto, para o Inominável,
também ele sabe o porquê e o quanto!,
o mundo é que não vai saber assim tão cedo.


Sumi
desprocurada
na indiferença
de ti, que nem me vias,
formiguinha no alcatrão.

Fizeste-me nada
nada me fazendo,
nada que não era
aquilo que sou
ou
água e sal,
só.

terça-feira, 5 de Janeiro de 2010

Intragédias

No mínimo deu para isto
a pena minha.
E já estou menos triste.
Claro que eu só distingo
realidade
de
fantasia
na hora do trabalho
-não me pagam por imaginar nada nem me alimento de sonhos-,
mas no resto do caminho,
anda tudo à mistura:
rebotalho de livros, filmes, vidas.

Também não é tragédia,
que é palavra muito maiúscula,
e não tenho pensado morrer ainda.

E não, não é sorte, nem azar, nem justiça divina.
Ou será?

segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

Vento

Está o chan estrado
de paraugas rotos,
como aves,
cadáveres,
o voo truncado
polas avenidas.

No ar, unha invasión
de follas mortas
que se cren paxaros,
e gallas esgazadas
polo chan,
a liberdade breve.

E eu sen asas que perder...

terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

Túrbido sangue

Non paga a pena remoer
nos imposibles.
Píngame o corazón tinta e
nin sequera é vermella,
só cinza a toldar as bágoas
que flúen latexando
polas corgas que labrou
a tenrura
inventada.

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Escamas e ecos

...de un no te quiero querer.
¿Y cómo huir cuando no quedan islas en que naufragar?
Peces de ciudad
. Joaquín Sabina.

Às vezes arribam à minha costa náufragos,
seduzidos no faiscar de escamas
dos peixes que morreram sobre a areia,
julgando que alcançaram uma estrela*.

Mas não tarda o dia em que regressam
ao mar de que vieram derrotados,
queimados na aspereza destas praias,
secura nas promessas de diamantes.

Passado o tempo, deles só resta um eco:
as suas vozes implorando água
antes de se perderem no nunca mais
do oceano de que vieram.

_______________
* Ou as minas do rei Salomão?

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Nocturno

Desdurmo nas trevas o novelo finito dos segundos,
habitada de in-sonhos,
desapossada de porvires.
O corpo é um desprazer de agulhas
álgidas que semeam brasas em músculos e ossos,
lancinantes,
cáusticas,
de que vingará a desolação.

Vem do caminho o lampião a me perfurar as pálpebras fechadas,
tremeluzindo em disfarçada ilusão de estrela
entre a folhagem decrescente do bordo japonês
a que o vento, irado com o mundo,
dá asas caprichosas.

E não durmo e não durmo
sobre o leito de dentes que me cravaste,
antes de a virares do avesso, na pele:
maninho e descarnado sequeiro!

P.S.:
Disto, afirmam eles, não se morre;
mas na dúvida, discrepo:
Desviver o tempo minguante
não é tricotar passos de moribundo?

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Nuvens e claros

Às vezes é agora e no quintal,
que é o mundo,
tem uma luz tão radiosa
e limpa
que a gente pensa:

Será que se abro a janela
vou ver o meu rosto desenhado no ar
como num espelho?

É assim o outono: contrastes.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Onde é nenhures

Fugir é morrer dum lugar...
"O dia em que explodiu Mabata-bata" em Vozes anoitecidas. Mia Couto


Nem sei quem sou
nem onde existo nem se...

É noite nas horas todas da escuridão,
falta de luz tudo, sombra de avaros tons,
sobre a devastação ampla das ruínas
—entulho, lixo, nem pó— que sou.

O lugar veio-me ao desencontro.
Tecto nem chão me amparando,
esboroaram as paredes no meu corpo
rebentado,
nenhurando-me.

domingo, 8 de Novembro de 2009

Recondensação

Talvez convenha transcrever a limpo
com orgulho fátuo, em frases alinhavadas, claras,
de caligrafia escolar,
a prosa mágica dos domingos.

Um caderninho datado aparece,
solitário e prenhe de antigamentes esculpidos,
runfar de merengues, a música dele,
evocações de fantasias e imatérias,
de miragens nunca alcançadas.

As alegrias parvas nem se sabem ocultar,
antes se vestem de panos e estrelinhas nos pés,
perdição delas
em mãos dos assassinos de cores e pirilampos.

sábado, 7 de Novembro de 2009

Permissão negada

Era uma vez uma pergunta.

Alguém comentou que se ouviu o silêncio matando as palavras,
resposta retórica
à esperança estéril do regresso.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Isto passa

Não fosse o que sei
(que isto passa),
partia-me de mim convertida
em asas, em nuvem,
partícula de nem-nada.

Isto passa,
tem de passar,
sempre passou.
Passa como os minutos,
nem restos, nem rastos.
Passa.

Não fosse o que sei
já nem soluço era,
eu levitante.

domingo, 4 de Outubro de 2009

Litomorfose

Deu agora em praticar a desobediência
ante a vontade
tanta
minha.
Cérebro comandante
é ninguém nem nada superior
a exercer poderes vãos.

—Come! —ordena.

O tal como se chovesse,
insubmisso,
águas que lavam lágrimas.
E chove.

Nem suplicando cede.
Está que nem pedra surda e cega,
petar que não comove,
este estômago.

Como se não bastasse
a presença pesada no peito
de latejar manso, lento?
Se calhar é um processo involutivo,
invasivo.

Quem sabe
não vire aos poucos
o sal diluído estátua
e eu seja afinal
a mulher com nome dum outro Ló,
ancorada no passado,
lume e enxofre na olhada,
pés de barro?

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Domingo de tarde, tarde

A tarde é só interrompida pelos cheiros
gasolínicos de motas d'água, barulhos
de impressionar raparigas em riquezas
só de brilhos.

E eu aqui a te reclamar atenções
com a única arma de meu corpo nu
apagado:
as palavras mudas.

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Com licença

Para o O. M.

Documentava-te agora mesmo
com os papeis meus autênticos,
fosse assim fácil fazer igual dizer:
data de nascimento e nacionalidade,
que me sobram tanto
nestes dias de lusco-fusco e outonos.
E era tão bom que fosses tu eu,
só ante as autoridades competentes
e para que conste:
bilhete de identidade,
permissão de residência,
carta de conduzir e amar
nesta terra de tão altas fronteiras
em que naufrago, nada sendo.

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Parte meteorológico

Este vento é do sul e acorda-me
com os sons de madrugada na N13
(barulho de camiões principalmente)
Não tarda em chover.

Nem amortecido se ouve o rebuliço dos pardais,
à procura de espaço e mais uma migalha de pão.
Também não tintinam os ferreirinhos nas bigornas frágiles
nem contemplam admirados o seu reflexo
sobre o vidro do meu gabinete,
a balançarem no cordel do mosquiteiro
como pêndulos da hora certa.

A melodia dos piscos nem se anuncia
ainda
nos seus olhos ausentes de enorme desconcerto escuro.

E as rolas,
com o cheiro a pólvora recente baixo ás as,
emudeceram.

Há para aí um melro a namorar entre as gardênias
(nem deve saber que já vem sendo outono),
mas sempre um gaio me adverte do perigo que sou eu.
Oi, ssst, silêncio!
Duas pegas discutem a propriedade dum ovo roubado
e meia dúzia de corvos em assembleia extraordinária
abrem um oco entre o nevoeiro.

Este vento vem do sul, com certeza:
não é a tua respiração no meu rosto
acarinhando-me.
De aqui a nada, chove-me.

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

Desvariações sobre o mesmo tema: Tu

Desescrevi-te as cartas e as histórias:
fui uma por uma apagando as letras,
os meu pouco tanto é muito do princípio
os tua tudo tanto é nada do final,
os nunca alguns de beijos
e os abraços sempre nenhuns.

Desenchi as ausências do vazio
em abundância que me resta;
de espaços brancos, as solidões e as noites;
de razão, os inermes sentimentos.

Nas promessas e nas juras desfalei-te,
desteci-te de sorrisos as olhadas,
missangas de lágrimas eu a toda página
tilintando na amanhecida cama
até a tinta secar e virar coalho o sangue.

Como asas de beija-flor
desdesenhei as mãos tuas esvoaçando
moribundas já,
me fugindo.

sábado, 29 de Agosto de 2009

O nome

Anónimo é sinónimo de desânimo
semeando dúvidas na identidade,
manto de invisibilidade que a gente veste
ou sombra e nada que nos tornam outros.
Sou ninguém às vezes,
nem definição tenho,
não ser inexistente nem inerte inanimado objecto.
A olhos de quem não vê, lixo que nem estorva;
à vista de quem procura, ausência escasa.

De aí vem a necessidade, acho,
de pronunciar alto e claro o meu nome
nesses dias em que me perco.

sábado, 22 de Agosto de 2009

O meu quimbanda?

Sou curandeira das frases doutros:
é esse o meu ofício silencioso.
Não elevar a voz, que ninguém repare nas cicatrizes.
Mas que dói às vezes tanto ser sombra,
tanto espectro, tanto nada,
tanto lutar contra infecções sem remédio,
incompetências alheias,
lidar para dotar de alma
carne que só merece sepultura.

E a mim quem me protege da miasma
que me corrompe o sangue?

domingo, 16 de Agosto de 2009

Desestrelação (versão)

Num documentário, conta o astrónomo, em cujo nome não reparei (desculpe-me por isso, mas foi só a frase que me prendeu nos ouvidos), que cada átomo que nos forma foi parte antes dalguma estrela. E eu...

Descontemplo as mãos,
ignoro-me também nos dedos com que já não te escrevo;
e das carícias inexistentes repelo-me, enxoto-me;
enxoto-me também dos cheiros de vocação evocadora que não mais
—não mais, não mais, não mais— te conjuram;
desouço a voz rouca e gasta que já nem o teu nome pronuncia;
renego-me nos pés que te não caminham, vereda,
ai vereda,
veredinha verde de descobertas por mim trilhada que foste.

Ou no de dentro mais interno esculco:
o coração exaurido;
os pulmões que amarfalhou tanto alento teu ausente neles;
o fígado enorme a rebentar o abdome, intoxicado de mágoas como vermes;
os tristes intestinos inomináveis.

E a luz? Onde a luz?! —grito.

A luz da estrela que fui atomizada, diz-me,
ficou presa na noite em que não mais me amaste?

sábado, 15 de Agosto de 2009

Retroverso

Já antes de te receber me despeço
despedaçando-me em adeusezinhos.